Já saiu a tabela atualizada com a rentabilidade anualizada dos PPRs mais falados e de alguns dos ETFs globais mais usados por quem está na jornada FIRE, com dados a 30 de junho de 2026.

(Resultados dos PPRs e ETFs líquidos de comissões.)
Como sempre: estes números não devem servir para comparar diretamente uma classe de produtos com a outra, especialmente porque os PPR têm benefícios fiscais que os ETFs não têm. Servem só para teres uma ideia de quanto cada um rendeu a curto e a longo prazo.
O Optimize PPR Agressivo, o destaque a 1 ano
O número que mais salta à vista é o Optimize PPR Agressivo a 1 ano: 30,02%. É de longe o melhor resultado entre os PPRs desta tabela, e fica até acima do VWCE e do IWDA no mesmo período. Isto não significa que o Optimize seja “o melhor PPR”, significa que a carteira dele esteve particularmente bem posicionada nos últimos 12 meses.
Repara no resto do histórico: a 3 anos está em 12,08%, a 4 anos em 13,36%, e ainda não há dados a 10 nem a 15 anos porque o fundo é recente de mais. Um fundo que salta tanto de um período para o outro tem normalmente uma carteira mais concentrada do que parece, e isso funciona nos dois sentidos: amplifica os anos bons, mas também vai amplificar os maus quando eles vierem. Um PPR “agressivo” com este tipo de resultado costuma ter uma alocação a ações muito próxima da de um ETF, só que com comissões de gestão ativa em cima. Se é isso que procuras, mais vale perguntares porque não investir diretamente num ETF e poupar essa comissão. O benefício fiscal do PPR só compensa olhar depois de teres retorno líquido a 10 ou 15 anos, e esse dado ainda não existe para este produto.
Save & Grow: o abrandamento que a média de 4 anos ainda esconde
A 4 anos o Save & Grow está em 9,81%, um número muito bom. Mas a 2 anos cai para 0,73%, e a 1 ano para apenas 1,56%. Não é uma correção de um mês, são dois anos seguidos fracos a puxar a média para baixo.
Já escrevi sobre isto antes: a concentração em grandes tecnológicas americanas que deu ao fundo resultados espetaculares em 2020 e 2021 é a mesma concentração que agora está a custar caro, num período em que esse setor específico não tem sido o motor do mercado. Quem entrou a meio do entusiasmo inicial está, muito provavelmente, a ter uma experiência bem diferente da média de 4 anos que aparece na ficha do produto.
Para veres isto de forma mais clara do que a tabela consegue mostrar, comparei a evolução do Save & Grow com o IWDA (MSCI World) no mesmo período. Uso sempre o IWDA como referência nestas comparações porque é o ETF com o histórico mais longo desta lista e o mais próximo de uma carteira global “simples”, por isso serve de vara de medir para perceber se um PPR está de facto a acrescentar valor ou só a acompanhar o mercado com mais solavancos.

Stoik: bom ano, mas a 10 anos continua atrás
O Stoik teve um ano excelente, 15,50% a 1 ano, o segundo melhor resultado a curto prazo de toda a tabela. Mas a 10 anos continua em 3,79%, bem abaixo de qualquer um dos ETFs desta lista com o mesmo histórico. Um ano bom não apaga uma década de resultados medianos. O Stoik trouxe uma conversa útil ao mercado português sobre custos e transparência em PPRs, e isso continua a ter valor, mas a rentabilidade de longo prazo ainda não lhe dá razão face às alternativas em ETF.
Invest AR: o mais aborrecido, também o único com 15 anos
O Invest AR PPR é o único desta tabela com dados a 15 anos, 7,74%, e mantém-se estável em todos os prazos: 4,57% a 10 anos, entre 5,5% e 7% nos períodos intermédios, 6,02% no último ano. Sem saltos, sem surpresas. É também o que menos entusiasmo gera nas comunidades de FIRE, precisamente por não ter números que valha a pena partilhar num grupo de Facebook. Mas é o único dos quatro PPRs com histórico longo sem quedas acentuadas pelo meio. Aborrecido, sim, mas para quem pensa em décadas e não em anos, isso costuma valer mais do que parece.
Nos ETFs, o habitual domínio, com o QDVE outra vez à frente
Nos ETFs os números continuam noutra dimensão. O QDVE, focado no setor tecnológico do S&P 500, aparece com 41,11% no último ano e 25,80% anualizado a 10 anos. Só para pôr em contexto: 10.000€ investidos há 10 anos no QDVE valeriam hoje mais de 95.000€. E não metas tudo no QDVE só porque teve uma década incrível. É um setor único, mais concentrado do que um índice global, e quando o ciclo virar contra a tecnologia, quem estiver totalmente exposto vai sentir isso com a mesma intensidade com que sentiu as subidas.
Mais relevante para a maioria de quem lê este blog é a comparação entre o IWDA e o CSP1 (S&P 500). A 10 anos, o CSP1 está em 14,90% contra 12,92% do IWDA, quase 2 pontos percentuais de diferença a favor da concentração nos Estados Unidos. É o resultado de uma década em que o mercado americano puxou claramente pelo resto do mundo. Não sabemos se a próxima década vai repetir este padrão, e é por isso que continuo a preferir o IWDA ou o VWCE como base de uma carteira, mesmo sabendo que nos últimos 10 anos “perderam” para o S&P 500 puro.
Uma coisa que vale a pena notar: a 5 anos, o VWCE está em 11,86% e o IWDA em 12,35%, meio ponto percentual de diferença. Dado que o VWCE inclui mercados emergentes e o IWDA não, esta diferença relativamente pequena sugere que os emergentes não se saíram tão mal como muita gente assume.

VWCE (all World) vs IWDA (MSCI World) vs CSP1 (S&P 500), evolução acumulada a 5 anos
PPR vs ETF a 10 anos, a comparação que interessa mesmo
Ignora por um momento o resultado a 1 ano do Optimize, que ainda não tem histórico longo para o sustentar. Olha antes para o único prazo com dados para quase todos os produtos: 10 anos. O melhor PPR a 10 anos é o Invest AR, com 4,57%. O pior ETF a 10 anos é o IWDA, com 12,92%. Mais de 8 pontos percentuais de diferença, todos os anos, durante uma década. Não há benefício fiscal de PPR que compense isto. Mesmo com englobamento otimizado e taxas efetivas de mais-valias na casa dos 6% a 8%, a diferença de rentabilidade bruta é grande de mais para o fisco conseguir apagar. 10.000€ investidos há 10 anos no Invest AR valeriam hoje cerca de 15.600€. Os mesmos 10.000€ no IWDA valeriam cerca de 33.700€, mais do dobro, sem contar com o efeito de reforços mensais, que só amplifica a diferença ao longo do tempo.
Conclusão
Nesta tabela há sempre um ou dois números que parecem contradizer a regra. Desta vez foi o Optimize a 1 ano. Da próxima vez que atualizar isto, daqui a dois meses, pode ser outro produto qualquer. O que não muda é o que acontece quando alargas o horizonte: os ETFs de índice global continuam, período após período, a render substancialmente mais do que os PPRs mais falados do mercado português.
Isto não significa que um PPR nunca faça sentido. Se ainda tens margem na dedução fiscal do ano (o limite depende da tua idade) e vais mesmo aproveitá-la, o benefício à entrada é real. Mas assim que essa margem se esgota, investir mais num PPR deixa de trazer vantagem fiscal e passa a competir diretamente com o ETF, numa comparação que os números aqui em cima mostram bem quem ganha. Escolher um PPR só porque teve um ano brilhante, ou fugir de um ETF porque teve um ano fraco em euros por causa do câmbio, é exatamente o tipo de decisão que esta tabela devia ajudar-te a não tomar.
Continua a investir de forma consistente, com o horizonte certo, e deixa que sejam os números de 10 e 15 anos a guiar a decisão, não os de 1.

