O início do ano é um bom momento para parar, olhar para trás e perceber o que realmente marcou o caminho. 2025 trouxe acontecimentos muito relevantes no mundo financeiro, com impacto direto em quem investe. Para a comunidade FIRE em Portugal, este ano destacou a resiliência das estratégias de investimento de longo prazo, mostrando como a diversificação pode mitigar riscos em cenários de inflação moderada e ajustes nas taxas de juro, permitindo acumular riqueza de forma sustentável rumo à independência financeira
Inflação e taxas de juro
A inflação nas maiores economias manteve-se estável, mas num nível mais alto do que nos anos anteriores. Nos Estados Unidos, o CPI (Consumer Price Index) terminou o ano em cerca de 2,7%, depois de ter estado perto de 2,7% em meados de 2025 e muito acima dos 7% que vimos em 2022. Na Zona Euro, a inflação terminou 2025 em torno de 2,0%, comparado com cerca de 2,5 % no começo do ano. Em Portugal, a inflação ficou próxima dos 2,2% no final de dezembro, depois de oscilar entre 1,9% e 2,5% durante o ano. Esta desaceleração trouxe alguma confiança aos mercados, e para investidores FIRE, significou uma erosão menor do poder de compra, facilitando o cálculo de taxas de retirada seguras (como a regra dos 4%) e incentivando alocações maiores em ativos de crescimento como ações
As taxas de juro dos bancos centrais refletiram esta evolução. O Federal Reserve reduziu a sua taxa de fundos federais para entre 3,50% e 3,75% no final do ano, após cortes progressivos ao longo de 2025, contrastando com o nível de 3,50-3,75% no início. O BCE ajustou as suas principais taxas de juro para cerca de 2% em 2025, com reduções face ao ano anterior para estimular a economia. O contexto de taxas elevadas por tanto tempo afetou setores sensíveis a crédito, como imobiliário e empresas muito endividadas, mas também realçou a importância de diversificação em carteiras sólidas. Para quem segue o FIRE, as taxas mais baixas no final do ano abriram oportunidades em obrigações e depósitos a prazo com yields ainda atrativos, equilibrando o risco de ações voláteis e ajudando a construir um “buffer” de emergência sem sacrificar retornos
Fiscalidade do investimento
Em termos de fiscalidade em Portugal, 2025 foi marcado por uma alteração legislativa extremamente relevante para os investidores de longo prazo, especialmente para quem segue a filosofia FIRE e planeia manter os investimentos durante muitos anos.
A grande mudança para os investidores em Portugal chegou com a Lei n.º 31/2024. A alteração ao Artigo 43.º do CIRS, introduzida por esta lei, é um dos benefícios mais significativos para investidores de longo prazo, trata-se de uma exclusão parcial de tributação, que reduz a base sobre a qual o imposto incide. As regras são as seguintes:
• Período de detenção < 2 anos: 0% do lucro é excluído (100% é tributável).
• Período de detenção ≥ 2 anos e < 5 anos: 10% do lucro é excluído (90% é tributável).
• Período de detenção ≥ 5 anos e < 8 anos: 20% do lucro é excluído (80% é tributável).
• Período de detenção ≥ 8 anos: 30% do lucro é excluído (70% é tributável).
Esta exclusão reduz o rendimento coletável, que é o montante que será sujeito às taxas progressivas de IRS caso se opte pelo englobamento. E para a maioria dos cenários FIRE, com levantamentos anuais “normais”, o englobamento é a escolha mais acertada, permitindo que investidores com rendimentos baixos ou moderados paguem uma taxa efetiva muito inferior aos 28% da taxa liberatória, especialmente quando combinado com esta exclusão progressiva por tempo de detenção (explicação detalhada neste artigo). Esta medida incentiva claramente a estratégia buy-and-hold tão característica do movimento FIRE, premiando a paciência e a disciplina de quem investe a pensar em décadas
Flutuações cambiais
Em 2025, o euro apreciou-se significativamente face ao dólar americano, com uma valorização de aproximadamente 13,3% (de cerca de 1,035 USD/EUR no início do ano para 1,173 USD/EUR no final). Esta fortalecimento do euro, equivalente a uma desvalorização do dólar em torno de 11,8% face ao euro, teve um impacto notável nos investidores portugueses com exposição a ativos denominados em USD, como ações americanas ou ETFs globais. Para a comunidade FIRE, isso significou retornos mais moderados quando convertidos para euros, apesar de ganhos sólidos em termos de dólar. Se a taxa de câmbio tivesse ficado inalterada (sem variação no EUR/USD durante 2025), um ETF em euros com exposição pesada a ativos em dólares (como o SXR8 ou IWDA) teria rendido aproximadamente mais 11,8% do que o observado. Isso porque a apreciação do euro (equivalente a uma desvalorização do dólar em ~11,8% face ao euro) “descontou” esse valor dos retornos em euros, transformando ganhos mais robustos em USD em resultados mais modestos quando convertidos
Tecnologia e IA em destaque
No campo das tecnológicas, 2025 foi um ano onde as grandes empresas de inteligência artificial e tecnologia continuaram a crescer, ainda que com variações significativas entre elas. A Apple terminou o ano com um ganho de cerca de 11%, o que reflete forte desempenho de vendas, especialmente de serviços e produtos novos, apesar de um mercado mais seletivo. A Microsoft subiu cerca de 13%, impulsionada pela cloud computing e licenças de IA, consolidando a sua posição em soluções empresariais. A Nvidia, que tinha tido um crescimento estratosférico nos anos anteriores, acabou 2025 com uma valorização mais moderada de cerca de 37 %, mostrando alguma estabilização depois de anos de crescimento explosivo, mas ainda beneficiando do boom em chips para IA

Isto demonstra que mesmo as maiores tendências tech podem ter anos de ritmos variados, mas continuam a contribuir de forma importante para os índices globais
Melhores ações americanas de 2025
Ações americanas que mais subiram em 2025. Embora o ano de 2025 tenha sido dominado por discussões sobre empresas como Palantir (PLTR), Tesla (TSLA) e Nvidia (NVDA), com ganhos notáveis de cerca de 133% para a Palantir no hype de IA e dados, mas apenas 15% para a Tesla em meio a desafios no setor automóvel elétrico, e 37% para a Nvidia após anos de explosão, os verdadeiros campeões de performance no mercado americano foram ações muitas vezes menos mencionadas no dia a dia. Isto serve como lembrete valioso para a comunidade FIRE: as empresas mais faladas nos media e fóruns nem sempre entregam os maiores retornos, e frequentemente as surpresas vêm de setores subestimados como armazenamento de dados, semicondutores ou mineração, que podem passar despercebidos para o investidor casual. Priorizar diversificação via ETFs globais ajuda a capturar estes “dark horses” sem o risco de seleções individuais erradas, promovendo um crescimento estável para a independência financeira
De acordo com dados da Morningstar para ações large-mid cap nos EUA, as top performers incluíram:
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Western Digital (WDC) com impressionantes 306,4%, impulsionada pela procura por soluções de armazenamento em data centers para IA
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Micron Technology (MU) em 240,2%, beneficiando do boom em memórias para tecnologias avançadas
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Seagate Technology (STX) com 225,2%, também no setor de HDDs e armazenamento
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Robinhood (HOOD) em 203,5%, crescendo com o aumento no trading retail
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Newmont (NEM) com 172,8%, como mineradora de ouro a aproveitar a alta do metal precioso

Estes nomes, muitos dos quais provavelmente não estavam na lista de ações a comprar para quem faz stock picking, destacam como oportunidades reais surgem em nichos inesperados, incentivando uma abordagem paciente e diversificada no FIRE
Para o público FIRE, investir em ETFs diversificados ajudou a capturar esses ganhos sem o risco de picks individuais, reforçando a estratégia de buy-and-hold para a reforma antecipada
Mercados emergentes e Europa
Na Europa, 2025 ficou marcado por um crescimento modesto, com o PIB da zona euro a crescer cerca de 1,3% no ano, um valor inferior às expectativas iniciais de 2%. A Alemanha, principal economia europeia, cresceu apenas cerca de 0,2%, afetada por fraca procura externa e setores industriais em ajuste. Por outro lado, economias do sul da Europa, incluindo Portugal e Espanha, registaram crescimento um pouco melhor, perto de 1,9% para Portugal e 2,9% para Espanha, apoiadas no turismo e consumo interno, o que ajudou a reforçar a confiança dos investidores nestes mercados. Para quem procura FIRE em Portugal, esse crescimento local significa mais oportunidades em emprego ou side hustles para aumentar a taxa de poupança, enquanto o modesto PIB europeu reforça a necessidade de exposição global via investimentos diversificados
Ativos alternativos, ouro e Bitcoin
O ouro continuou a cumprir o seu papel de ativo de reserva de valor, com uma valorização anual de cerca de 45%, compensando períodos de nervosismo nos mercados e atuando como hedge contra inflação e incertezas geopolíticas. O Bitcoin teve um ano volátil, mas terminou 2025 com uma desvalorização significativa perto de -17%, muito abaixo da maioria dos ativos tradicionais, reforçando a sua posição como parte de carteiras onde o investidor aceita maior risco e volatilidade, mas destacando os perigos de alocações excessivas em crypto para planos FIRE conservadores
Resultados dos principais ETFs e ativos em 2025
Em termos de desempenho, 2025 foi globalmente positivo para quem manteve uma estratégia simples e disciplinada, embora com ajustes baseados em dados reais do ano.
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VWCE (FTSE All-World) terminou o ano com um ganho de cerca de 7%, refletindo força nas bolsas globais apesar de setores mais fracos.
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IWDA (MSCI World) teve um desempenho similar, com valorização na ordem dos 7%.
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SXR8 (S&P 500) teve um desempenho mais fraco, com uma subida de cerca de 3%.
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A6QQ (Nasdaq-100) terminou o ano mais volátil, mas ainda positivo perto dos 5%, reflexo de um setor tecnológico mais seletivo em 2025.
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QDVE teve um desempenho mais forte, com uma subida de cerca de 9%.
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O ouro (código: XAUEUR) teve uma valorização notável de cerca de 45%.
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O Bitcoin em euros teve cerca de 17% de descida anual, embora com oscilações relevantes ao longo do ano

Mas para uma visão de longo prazo que é no que estamos interessados na comunidade FIRE, temos de olhar mais para trás. Aqui está uma tabela com os resultados dos últimos 10 anos (2016-2025), ano a ano, dos ETFs acima, Ouro e Bitcoin (valores em % de retorno anual total, baseados em dados históricos da Morningstar.

Estes dados destacam a volatilidade, especialmente em Bitcoin e tech-heavy como QDVE, mas reforçam o poder do compounding em estratégias FIRE diversificadas ao longo de uma década.
Para termos noção de quanto estes produtos teriam rendido se não tivesse havido a desvalorização do dólar falada acima (do ponto de vista do euro, ou seja, se a taxa de câmbio EUR/USD tivesse permanecido estável ao longo do ano), ficam aqui lado a lado os resultados dos mesmos produtos em euros e em dólares (USD). Esta comparação ilustra de forma clara como o fortalecimento do euro em cerca de 13,3% (equivalente a uma desvalorização do dólar em torno de 11,8% face ao euro) moderou os ganhos reais para investidores em Portugal, reduzindo o retorno efetivo quando convertido para a moeda local, um efeito clássico de risco cambial que pode “descontar” parte dos lucros em ativos internacionais.
Valores aproximados baseados em proxies de ETFs e dados de mercado da Morningstar:

Por exemplo, o SXR8 (que rastreia o S&P 500): em euros, o retorno anual de 2025 foi de apenas 4,73%, refletindo o impacto da apreciação do euro. No entanto, se estivéssemos na América, ou investíssemos em dólares (ou seja, investindo diretamente em dólares sem conversão cambial), o rendimento teria sido significativamente mais alto, na ordem dos 16,53% em USD. Uma diferença de cerca de 11,8 pontos percentuais atribuída puramente à flutuação monetária, mostrando como investidores locais nos EUA capturaram o ganho integral do mercado sem o “desconto” cambial que afetou os europeus É importante ter isto em mente porque muito do conteúdo que vemos nas redes sociais faz apenas copy paste dos resultados americanos e não reflete os nossos resultados em EUR.
Bolsas internacionais em destaque
Embora haja uma perceção comum de que a bolsa americana é quase sempre a melhor opção para investidores, com o S&P 500 e o Nasdaq frequentemente vistos como benchmarks imbatíveis, 2025 provou mais uma vez que isso nem sempre se verifica. Na verdade, muitos mercados internacionais superaram os índices dos EUA, destacando os benefícios da exposição global para mitigar riscos e capturar oportunidades inesperadas. Para a nossa comunidade FIRE em Portugal, isso reforça a lição de que depender exclusivamente do mercado americano pode limitar retornos, especialmente em anos como este, onde fatores como recuperação pós-pandemia, reformas económicas e setores locais impulsionaram ganhos superiores em emergentes e na Europa
Optar por ETFs diversificados como o VWCE ou fundos com alocação internacional ajuda a equilibrar carteiras para um compounding mais resiliente rumo à independência financeira. Baseado em dados de desempenho anual, o S&P 500 subiu apenas 16% e o Nasdaq Composite 20%, enquanto líderes globais incluíram o Kospi da Coreia do Sul com impressionantes 76%, impulsionado por tecnologia e exportações; o IBEX 35 de Espanha em 49%, beneficiando de turismo e energia renovável; o WIG da Polónia com 47%, apoiado em crescimento industrial; o ATHEX Composite da Grécia em 44%, com reformas fiscais; e o Ho Chi Minh Index do Vietname em 41%, refletindo expansão manufatureira
Outros destaques foram o FTSE/JSE All Share da África do Sul (38%), o Bovespa do Brasil (34%), o FTSE MIB da Itália (31%) e o S&P/BMV IPC do México (30%), todos acima dos EUA, enquanto o MSCI Emerging Markets (28%) e o MSCI All Country World ex-USA (29%) também superaram, ilustrando como a diversificação geográfica pode elevar retornos em cenários onde os EUA ficam para trás

Updates do projeto Financial Independence Portugal – FIRE
Desde o lançamento a 4 de outubro de 2025, o blog já ultrapassou as 3900 visitas, um resultado muito positivo tendo em conta que ainda existem apenas 17 artigos publicados. Estes artigos são, na sua maioria, bastante mais elaborados e interativos, e o artigo com melhor desempenho até agora foi a calculadora de impostos quando se chega ao FIRE, precisamente por ser o mais interativo. O feedback foi muito bom, o que confirma algo importante: quando a informação é prática, aplicada à realidade portuguesa e permite simular cenários reais, as pessoas sentem-se muito mais confiantes para tomar decisões
É exatamente esse tipo de conteúdo que o blog permite criar, com exemplos visuais, explicações passo a passo e ferramentas que não são possíveis nas redes sociais.
Um dos maiores bloqueios que continuo a ver nos leitores é a falta de confiança para dar o primeiro passo e começar a investir. Muitos sabem o que devem fazer, mas ficam presos na dúvida.
Como começar esta semana, mesmo que ainda tenhas dúvidas
- Define um valor pequeno para começar. O objetivo não é acertar no timing, é criar o hábito.
- Escolhe um ETF simples e diversificado, em vez de tentar otimizar tudo à partida.
- Faz a primeira compra e acompanha durante algumas semanas para ganhar conforto.
E lembra-te: sempre que surgirem dúvidas, o grupo de Facebook vai continuar sempre aqui para ajudar, esclarecer e acompanhar quem está a começar e durante todo o teu percurso FIRE Ninguém precisa de fazer este caminho sozinho, e ter uma comunidade ativa faz toda a diferença nos primeiros passos. A confiança constrói-se fazendo, não esperando pelo cenário perfeito. E ao juntares-te a um grupo de pessoas em que a baseline é poupar, investir e falar abertamente sobre as tuas finanças, isso passa a ser o teu novo “normal”.
Para quem prefere uma abordagem mais personalizada, os coachings individuais podem ser marcados diretamente, sendo uma forma rápida de ganhar clareza, confiança e passar à ação com um plano ajustado à tua situação. Tenho feito várias sessões e a experiência tem sido extremamente gratificante Ver pessoas que andaram meses ou até anos a adiar o primeiro investimento ganharem segurança e começarem logo após uma sessão é uma das partes mais recompensadoras deste projeto.
Por outro lado, quem já está na jornada FIRE enfrenta desafios diferentes. O mais comum é perceber que o número FIRE inicial não era realista, seja por subestimar impostos, inflação ou despesas futuras. Ajustar esse número, de forma consciente e fundamentada, traz muito mais tranquilidade e clareza ao plano de longo prazo
O livro físico do guia sobre como investir na bolsa esgotou novamente. O feedback tem sido muito positivo, sobretudo pelo facto de ser mais fácil e rápido de ler em papel do que no telemóvel A meio do próximo ano é provável que mande imprimir mais alguns exemplares, caso continue a existir interesse, e possivelmente uma edição atualizada, incorporando lições de 2025, nomeadamente sobre volatilidade, moeda e a importância de pensar em hedges.
Para 2026, o objetivo mantém-se claro: continuar a criar artigos de forma consistente para o blog, construindo uma base de dados sólida e prática sobre todos os temas relevantes ao FIRE em Portugal, desde fiscalidade a investimentos, passando por planeamento e tomada de decisões em diferentes fases da jornada
Espero que tenham gostado deste resumo. Agora deixo algumas perguntas para vocês: atingiram os objetivos que tinham definido para 2025? O que correu melhor do que esperavam e o que fariam de forma diferente? Partilhem nos comentários as vossas experiências e, se tiverem sugestões de tópicos para o blog, digam também. Bom ano e bons investimentos a todos!








