Muitos de nós, quando já estudámos os produtos disponíveis e queremos começar a investir, ficamos indecisos entre investir no índice MSCI World e o S&P 500. Ambos são populares entre os investidores, mas qual é a melhor opção para quem quer chegar ao FIRE? Vamos analisar com base em estatísticas de retornos históricos e ciclos de mercado.
Esta dúvida aparece recorrentemente porque, a partir de certo ponto, o problema deixa de ser “onde investir” e passa a ser “como lidar com a incerteza”. Já não estamos a comparar produtos claramente maus com bons, estamos a comparar duas opções sólidas, eficientes e amplamente usadas por investidores de longo prazo. E é precisamente aí que a análise superficial começa a falhar.
Muitos investidores olham para os gráficos e sentem a tentação de perseguir apenas o cavalo que corre mais rápido. Mas, para quem planeia viver do portfólio daqui a 15 ou 20 anos, a escolha exige uma análise mais profunda do que apenas olhar para a rentabilidade do último ano.
É aqui que entram fatores menos óbvios, como concentração geográfica, sobreposição entre ETFs, custos acumulados ao longo de décadas e até implicações fiscais que só se fazem sentir muitos anos mais tarde.
O Que Estamos a Comparar? (SXR8 e IWDA)
Antes de irmos aos números de 2025, vamos definir os protagonistas:
S&P 500 (Ex: iShares Core S&P 500 – SXR8): Este ETF replica as 500 maiores empresas cotadas nos EUA. É o motor da economia americana e inclui gigantes como Apple, Microsoft e Nvidia.
MSCI World (Ex: iShares Core MSCI World – IWDA): Este índice abrange cerca de 1.500 empresas de 23 países desenvolvidos. Embora cerca de 70% do índice seja composto por empresas dos EUA, os restantes 30% dão-te exposição à Europa, Japão, Canadá e outros mercados desenvolvidos.
Este último detalhe costuma ser subestimado. O nome “World” cria a ideia de uma dispersão global muito mais equilibrada do que aquela que realmente existe. Na prática, quem investe no IWDA continua fortemente dependente do desempenho americano, apenas com uma almofada adicional proveniente de outros mercados desenvolvidos.
É também aqui que surge uma das dúvidas mais frequentes entre investidores: se o IWDA já tem 70% de EUA, faz sentido combiná-lo com um ETF exclusivamente americano como o SXR8? A resposta não é preto no branco, mas é importante perceber que, ao fazê-lo, estás a aumentar deliberadamente a concentração nos EUA, não a diversificação. Muitas pessoas fazem isto sem se aperceberem.
O Estado Atual: Retornos Históricos e o Fenómeno de 2025
O ano de 2025 foi particularmente interessante. Enquanto os EUA continuaram a mostrar resiliência, assistimos a uma dinâmica que muitos já não esperavam.
Retornos Anualizados (a Dezembro 2025)
| Índice | Últimos 10 Anos | Últimos 20 Anos |
| S&P 500 (SXR8) | ~13.5% | ~10.2% |
| MSCI World (IWDA) | ~11.0% | ~8.5% |
Os números são claros e ajudam a explicar porque tanta gente se sente atraída pelo S&P 500. No entanto, este tipo de comparação carrega sempre um risco implícito: assumir que aquilo que correu melhor continuará inevitavelmente a correr melhor. A história dos mercados mostra-nos repetidamente que esta extrapolação é perigosa.
A Surpresa Europeia em 2025 
Um dos grandes destaques deste ano que agora termina foi o desempenho das bolsas europeias. Após anos de lateralização face aos gigantes tecnológicos americanos, a Europa teve um ano bastante positivo. Setores como o luxo, a indústria automóvel (na sua transição energética) e a banca beneficiaram de uma estabilização das taxas de juro e de uma recuperação do consumo interno.
Quem investiu no MSCI World beneficiou desta subida europeia, o que ajudou a equilibrar a carteira num período em que as avaliações (P/E ratio) nos EUA começaram a parecer exageradas para muitos analistas.
Este tipo de movimento é um bom lembrete de que a diversificação raramente brilha todos os anos, mas tende a mostrar valor quando menos se espera. Normalmente só percebemos a sua utilidade depois do facto consumado.
A Filosofia por trás da Escolha: Onde te queres posicionar?
Aqui reside o ponto fulcral que muitos investidores ignoram. Ao escolheres um destes índices, estás a tomar uma posição geopolítica implícita:
Investir no S&P 500 (SXR8): É, na prática, investir a favor da América e contra o resto do mundo. Estás a apostar que a inovação, o sistema jurídico e a força do dólar continuarão a esmagar qualquer concorrência externa.
Investir no MSCI World (IWDA): É uma aposta na diversificação entre nações desenvolvidas, mas é também uma aposta contra os mercados emergentes. O IWDA exclui países como China, Índia ou Brasil.
Este último ponto é relevante porque muitos investidores assumem que o MSCI World representa “o mundo inteiro”, quando na verdade deixa de fora economias que, goste-se ou não, podem representar uma fatia significativa do crescimento global nas próximas décadas.
Se o teu objetivo é ter “literalmente tudo” e não queres tentar prever se os EUA vão continuar a dominar ou se a Índia será a próxima superpotência, a solução passa por um índice All-World (como o VWCE – Vanguard FTSE All-World). Este inclui mercados desenvolvidos e emergentes, sendo a forma mais pura de investir na economia global.
A Natureza Cíclica: O Fantasma da “Década Perdida”
É fácil olhar para o gráfico do SXR8 desde 2010 e pensar que é impossível perder. Mas o investidor FIRE precisa de ter memória longa.
No gráfico abaixo vemos que desde 2015, o S&P 500 (SXR8) rendeu 262%, e o MSCI World (IWDA) rendeu 189%. A escolha parece óbvia, mas temos de olhar também para os períodos anteriores.
Na década de 2000 a 2009, o S&P 500 teve um retorno anual médio negativo de cerca de -5.2%. No mesmo período, o MSCI World, graças à sua diversificação, superou o índice americano em cerca de 7.1% ao ano. Houve períodos em que os EUA ficaram “estagnados” enquanto o resto do mundo crescia.
Este tipo de década é precisamente o cenário que mais prejudica quem está demasiado concentrado num único mercado, sobretudo se coincide com a fase de levantamento do portefólio.
Atualmente, cerca de 40% dos lucros das empresas do S&P 500 vêm de fora dos EUA. Isto significa que, mesmo que a economia interna americana sofra, estas empresas são autênticas máquinas globais. No entanto, a diversificação geográfica do IWDA ainda é a tua melhor proteção contra riscos legislativos ou fiscais específicos de um único país.
Aqui entra também um fator muitas vezes ignorado: os custos. ETFs do S&P 500 tendem a ter TER mais baixo do que ETFs globais. Esta diferença parece irrelevante no curto prazo, mas ao longo de 20 ou 30 anos pode representar dezenas de milhares de euros. Não é o fator decisivo, mas é mais uma peça do puzzle.
Qual Escolher para o teu FIRE?
Escolhe o SXR8 (S&P 500) se acreditas que os EUA vão manter a hegemonia tecnológica e se tens estômago para a volatilidade de estar 100% exposto a uma única jurisdição.
Escolhe o IWDA (MSCI World) se preferes dormir mais descansado sabendo que, se os EUA passarem por uma “década perdida” como a de 2000, tens a Europa e o Japão a segurar as pontas.
Exemplo de Alocação Equilibrada
Muitos membros da comunidade FIRE optam por um meio-termo para não terem de escolher “um ou outro”:
70% SXR8: Captura o crescimento agressivo das tecnológicas americanas.
30% IWDA: Garante que não ficas de fora se a Europa ou a Ásia surpreenderem (como aconteceu em 2025).
É importante perceber que esta abordagem não elimina a sobreposição. Ela assume-a conscientemente. Não é uma solução “mais diversificada” no sentido clássico, mas sim uma forma de inclinar a carteira para os EUA sem abdicar totalmente da exposição global.
Conclusão
Independentemente da tua escolha, o mais importante é a taxa de poupança e a consistência. O mercado terá sempre ciclos, mas o tempo é o melhor amigo do investidor.
Se o teu horizonte é de 15+ anos, qualquer uma destas escolhas (SXR8 ou IWDA) coloca-te à frente de 90% ou mais da população. O segredo é não saltar de estratégia em estratégia cada vez que um índice brilha mais que o outro.
Até à próxima, e boas poupanças! ![]()
