Porque é que todos nós devíamos ter um side hustle para pôr em perspectiva o valor do dinheiro?
Para todos aqueles que se interessam por finanças pessoais, poupar e investir, o aprender a dar valor ao dinheiro normalmente vem de algumas experiências de vida e muita leitura e pesquisa.
Uma das maneiras mais fáceis de dar o devido valor ao dinheiro que gastamos por exemplo num bem supérfluo é fazer as contas a quantas horas temos de trabalhar para o financiarmos. Este conceito é falado em quase todos os livros que devíamos ler na nossa jornada para a independência financeira: No Money or Your Life da Vicki Robin e Joe Dominguez, The Simple Path to Wealth do JL Collins, The Millionaire Next Door do Thomas Stanley e até o I Will Teach You to Be Rich do Ramit Sethi. Queres gastar 1000€ num telemóvel e ganhas 1000€ por mês? São 40 horas semanais, vezes 4 semanas, o que dá 160 horas sentado numa secretária (ou seja qual for a forma como trabalhas) a fazer uma tarefa para pagar esse telemóvel. 160 horas do teu tempo que podias estar a fazer algo que gostas mais, como passear, ir à praia (se fosse verão), ou brincar com o telemóvel (o antigo, isto é). 😉 É uma maneira fácil de por as coisas em perspectiva. Compras um determinado bem, e deste x horas da tua vida em troca.
Este conceito na minha opinião é super poderoso, especialmente quando o ouvimos a primeira vez. É um conceito que se aprende e permanece no nosso subconsciente. Normalmente pensamos nele quando estamos prestes a comprar coisas de valores avultados como umas férias super caras ou um carro novo e faz-nos pensar duas vezes se é mesmo preciso gastar tanto dinheiro ou se se calhar ficávamos mais bem servidos com algo mais barato que faz o mesmo efeito e investíamos a diferença. Mas para coisas mais baratas, normalmente não fazemos este exercício ou com o passar do tempo fazemo-lo cada vez menos.
Uma maneira que acho que nos traz uma perspectiva mais persistente em relação ao dar valor ao dinheiro é um side hustle. Partindo do principio que a maior parte de nós não vai conseguir ser milionário com um “trabalho paralelo“, todo o tempo e trabalho que pomos neste tipo de atividade, é sentida com muito mais intensidade. Seja a criar um produto físico que vendemos no OLX ou um produto digital que vendemos no etsy. Há uma série de tarefas inerentes ao criar algo e subsequentemente por à venda, como o planeamento, o trabalho de criar o próprio produto, o tempo que se investe a criar um anuncio ou abrir uma loja online, o lidar com os “clientes“ e pagamentos, e se for algo que renda um pouco mais, até abrir atividade nas finanças, passar faturas, etc, etc.
Quando chegamos ao ponto onde já estarmos a fazer 50 ou 100€ por mês, da-nos uma perspectiva completamente diferente sobre um gasto de 50 ou 100€. Pensamos em todo o esforço que tivemos de fazer para conseguir chegar aquele ponto e passamos a ponderar muito melhor se vale realmente a pena gastar essa quantia ou se podemos reinvestir esse dinheiro no nosso negócio para o fazer crescer. Subitamente, 50 ou 100€ deixam de ser uma quantia pequena e passamos a ter outra noção do seu valor real. Talvez antes não hesitássemos tanto em gastar esse montante numa peça de roupa ou num gadget, mas agora vemos todo o trabalho que representa ganhar essa importância e pensamos duas vezes antes de a gastar.
Como efeito secundário positivo também nos ajuda a perceber os sacrifícios que outras pessoas fazem para levar os seus negócios para a frente (quer seja um proprietário de um bar que trabalha até de madrugada para garantir o sucesso do negócio, um artesão que produz peças manualmente durante horas ou um empreendedor digital que cria conteúdo regularmente nas redes sociais). Ter a nossa própria pequena atividade dá-nos uma noção real de tudo o que envolve empreender e vender os nossos produtos ou serviços.
Passamos a ter um respeito acrescido por quem consegue transformar o seu negócio numa fonte principal de rendimento. Sabemos os desafios inerentes em agarrar clientes, construir uma reputação sólida e crescer as vendas mês após mês. Estas aprendizagens acabam também por se refletir na forma como gerimos as nossas próprias finanças pessoais, dando valor a cada euro que ganhamos e gastamos.
Criar e vender algo por nossa conta também nos ajuda a compreender melhor o esforço que está por trás de qualquer negócio ou produto comercial. Desenvolvemos mais respeito por quem consegue transformar uma ideia numa realidade tangível, produzindo e comercializando bens ou serviços. Passamos a valorizar ainda mais o trabalho e tempo investidos na criação e sustentabilidade de qualquer micro ou macro empresa.
Até o ato de adquirir e arrendar um imóvel, que também é um side hustle, nos faz crescer imenso e ter uma perspectiva completamente diferente em relação ao preço das rendas e o que implica ser senhorio. A ideia geral em relação ao imobiliário antes de termos um imóvel para arrendar é a seguinte: Por um lado ouvimos de muitos amigos e conhecidos que têm imóveis arrendados a dizer que têm problemas com inquilinos que não pagam e estão há x anos para receber e já gastaram milhares de euros em advogados etc., ou que lhes estragaram as casas e tiverem imensas despesas. Por outro lado pensamos que quem têm imóveis para arrendar são os ricos que “de certeza que os têm, porque são uns sortudos que vêm de famílias ricas e têm 10 imóveis” e ainda por cima são uns sovinas porque fazem tudo sem contrato e mandam os inquilinos fora quando lhes apetece só porque encontraram alguém que dá mais 50 euros. Ainda por cima, têm os tais 10 imóveis, são ricos e nem sequer precisam do dinheiro. Como é que pedem a um jovem com 20 anos no seu primeiro emprego e em começo de vida a ganhar o ordenado mínimo, que quer arrendar um T2 em Lisboa, 1000€ de renda? Estes dois pensamentos entram em conflito e normalmente focamo-nos mais no último, ficando com a ideia de que especialmente porque o direito a habitação é um direito constitucional, devia haver “alguém” que se preocupasse com quem ganha o ordenado mínimo e lhes arranjasse casa. Quando abrimos o idealista e vemos que o tais T2 em Lisboa custam mais de 1000€, é normal que a culpemos as pessoas que os estão a arrendar. Mas só vemos as coisas assim porque em principio não nos demos ao trabalho de fazer as contas. Se um imóvel está a ser arrendado em Lisboa por 1000€ em principio é um imóvel que está a custar 250.000€ ou mais. E tem de haver uma relação entre o preço de compra e o preço do arrendamento. Uma simulação rápida no site da CGD por exemplo diz-nos que para uma casa d 250k, temos que dar 50k de entrada e ficamos a pagar 1100€ por mês a 30 anos. Muitas das casas que há para alugar são de pessoas normais, começaram a carreira a ganhar 700€ aos 20 anos, e se calhar trabalharam e pouparam muito, e quando chegaram aos 30 ou 40 tinham 50k para dar a tal entrada, ou melhor 60k por causa dos impostos. Então compram esta casa e pedem 1000€ por mês, o que parece uma absurdidade para qualquer pessoa que recebe o ordenado mínimo. No entanto desses 1000€ só vê 700 por causa dos impostos que nem chega para pagar o empréstimo. Depois temos de contar com desocupação porque nem sempre se tem inquilinos. IMI e condomínio, e todas as reparações que precisam de ser feitas numa casa ao longo dos anos. Depois há a questão da disponibilidade que temos de ter para ir ao imóvel cada vez que há algum problema, e potencialmente ter de lidar com faltas de pagamento e despesas com advogados que podem demorar anos. Ou seja, por essa “absurdidade” de dinheiro que se pede, ficamos em défice durante 30 anos e depois sim a casa fica para nós e podemos vende-la ou continuar a aluga-la. Em resumo, passaste 10 ou 20 anos a poupar e a privar-te de algumas coisas para poupares a entrada, compraste a casa e tens 30 anos pela frente literalmente a perder dinheiro, mais o trabalho de arranjar e tratar dos inquilinos, e tens de ouvir pessoas a dizer que devias “ter uma certa responsabilidade social” e baixar a renda para 300 ou 400 euros para uma pessoa que ganha o ordenado mínimo a conseguir pagar.
Em suma, qualquer side hustle só nos faz crescer e aprender a ver as coisas de prismas diferentes. Para além de nos dar outra perspectiva sobre o valor do dinheiro, também nos dá experiências que de outra forma seriam quase impossíveis de adquirir.